Biodiversidade como atrativo estratégico que soma conservação ambiental e geração de renda

O Projeto Fitoterápicos atuou como ponte entre saberes tradicionais, ciência e políticas públicas, além de promover investimentos em infraestrutura, equipamentos e capacitação.

3 de Setembro de 2026

Biodiversidade como atrativo estratégico que soma conservação ambiental e geração de renda

A história dos biomas brasileiros é indissociável dos povos que, há gerações, cultivam e preservam o conhecimento sobre o uso de plantas medicinais. É nesse contexto de resgate e celebração ancestral que o Projeto Fitoterápicos atuou como uma ponte entre saberes tradicionais, ciência e políticas públicas. Além de promover investimentos em infraestrutura, equipamentos e capacitação, o projeto fortaleceu sistemas produtivos, consolidou cadeias de valor da sociobiodiversidade e criou oportunidades para que comunidades tradicionais ampliassem sua autonomia econômica sem abandonar seus modos de vida e suas práticas ancestrais. Ao todo, a iniciativa apoiou 16 Arranjos Produtivos Locais na Amazônia, Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica, envolvendo diretamente 1.847 pessoas — mais de 60% delas mulheres entre dezembro de 2018 e junho de 2026. 

"Os resultados do Projeto Fitoterápicos demonstram que investir na biodiversidade brasileira é também investir nas pessoas. Ao longo da iniciativa, mais de 349 pessoas participaram das oficinas em boas práticas agrícolas e manejo sustentável de plantas medicinais, sendo mais de 203 indígenas. Esse fortalecimento de capacidades amplia a autonomia das comunidades, valoriza os conhecimentos tradicionais e cria condições para que conservação ambiental, geração de renda e promoção da saúde avancem de forma integrada."
- Gabriel Fávero, assessor técnico do PNUD Brasil.

Implementado pelo PNUD, com financiamento do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês), coordenação técnica do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e mediação da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), o projeto demonstrou que a conservação dos biomas e a valorização dos conhecimentos tradicionais podem caminhar juntas. Experiências de restauração florestal, sistemas agroflorestais, viveiros comunitários, manejo sustentável de espécies nativas e fortalecimento de farmácias vivas evidenciaram que o desenvolvimento sustentável depende do protagonismo das comunidades que historicamente cuidam dos territórios.

Uma das principais lições do Projeto Fitoterápicos é que ciência e saber tradicional não são conhecimentos opostos, mas complementares.

Foto: Lucas Ribas/PNUD

Escolhas que fortaleceram os resultados 

Os resultados alcançados se devem a uma abordagem integrada e participativa. Desde o início, o projeto reconheceu que a inovação em saúde não depende apenas da pesquisa científica, mas também do respeito aos conhecimentos acumulados por gerações de povos indígenas, quilombolas, raizeiras, rezadeiras, agricultores familiares e demais comunidades tradicionais.

Outro diferencial foi o fortalecimento simultâneo de diferentes dimensões das cadeias produtivas. O apoio não se limitou à aquisição de equipamentos e adequação de unidades produtivas. O projeto também investiu em capacitações técnicas, gestão de empreendimentos comunitários, regulamentação, certificação, acesso a mercados, proteção dos conhecimentos tradicionais e fortalecimento institucional das organizações participantes.

A articulação entre comunidades, instituições de pesquisa, órgãos governamentais e especialistas permitiu avanços importantes, como a elaboração de monografias para inclusão na Farmacopeia Brasileira, o estabelecimento de parceria com a Fiocruz/Farmanguinhos para o desenvolvimento de novos medicamentos fitoterápicos destinados ao SUS, como o quebra-pedra (Phyllanthus niruri), indicado para distúrbios urinários, e a construção de orientações para a regulamentação de produtos tradicionais. Esse processo foi marcado pela participação ativa dos detentores dos conhecimentos tradicionais, garantindo que as futuras diretrizes reflitam a realidade das comunidades e valorizem sua contribuição para a conservação da biodiversidade e para a saúde pública.

"Reunimos representantes dos guardiões dos conhecimentos tradicionais para construir um documento orientador que possa apoiar a produção de plantas medicinais e contribuir para desburocratizar os processos, onde for necessário. Mais do que isso, a participação das comunidades tem o objetivo de fazer com que futuras normativas contemplem aqueles que detêm esse conhecimento: os guardiões. Esse não será um documento normativo, mas um instrumento orientador para subsidiar uma futura regulamentação, abrangendo não apenas as plantas medicinais, mas também produtos como cosméticos, sabonetes, chás, lambedores, entre outros", destaca Nilton Batista, analista ambiental do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

Conhecimento tradicional e ciência 

Uma das principais lições do Projeto Fitoterápicos é que ciência e saber tradicional não são conhecimentos opostos, mas complementares. O desenvolvimento de pesquisas, monografias e medicamentos ocorreu com participação ativa das comunidades detentoras dos conhecimentos associados às plantas medicinais, respeitando processos de Consentimento Livre, Prévio e Informado e os mecanismos de Acesso e Repartição de Benefícios previstos na legislação brasileira. 

O desenvolvimento do primeiro fitoterápico à base de quebra-pedra (Phyllanthus niruri) e o acordo para viabilizar sua produção e submissão regulatória à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) representam um marco na integração entre conhecimento tradicional e ciência. Ao reunir pesquisa, rigor técnico, regulamentação sanitária e reconhecimento dos direitos das comunidades, a iniciativa demonstra ser possível transformar a biodiversidade brasileira em soluções inovadoras para o Sistema Único de Saúde (SUS), promovendo inovação de forma ética, inclusiva e sustentável.

“Celebramos o desenvolvimento de uma alternativa terapêutica segura e eficaz, mas que carrega consigo algo ainda mais profundo: o reconhecimento de que esses povos são os verdadeiros guardiões históricos da nossa biodiversidade e do patrimônio genético nacional”.
- Elisa Calcaterra, representante residente adjunta do PNUD no Brasil.

Nesse contexto, para viabilizar o desenvolvimento e a produção de lotes-piloto do fitoterápico derivado de quebra-pedra, foi necessária a obtenção do Consentimento Prévio e Informado da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME), detentora do conhecimento tradicional associado à quebra-pedra.

Representante da APOINME, o Cacique Henrique menciona a importância do respeito aos saberes tradicionais: “Temos várias plantas medicinais em nossos territórios, que podem ser testadas e trabalhadas para ser usadas para o nosso povo brasileiro. Nós, povos indígenas, temos capacidade de contribuir com esse conhecimento e, por isso, lutamos tanto por nossos territórios. Esse medicamento é resultado da união do respeito, da ciência e do conhecimento do nosso povo”, afirma.

Fortalecimento comunitário como estratégia de conservação 

As experiências apoiadas pelo projeto mostraram que a conservação da biodiversidade se torna mais efetiva quando associada à geração de oportunidades concretas para as comunidades locais. Viveiros comunitários, sistemas agroflorestais, restauração de áreas degradadas e o manejo sustentável de espécies como andiroba, copaíba e plantas medicinais permitiram aumentar a renda das famílias enquanto fortalecem a proteção dos ecossistemas.

Em Goiás, a Cáritas Diocesana do estado fortaleceu ampla rede comunitária de fitoterápicos ao apoiar formações sobre cultivo, beneficiamento, uso seguro e comercialização de plantas medicinais, além de estruturar três viveiros-estufas, que ampliaram a produção de mudas, contribuíram para a recuperação de nascentes e áreas degradadas e garantiram acesso contínuo às espécies utilizadas nos cuidados comunitários. 

Já na comunidade de São Domingos, na Floresta Nacional do Tapajós, no Pará, o apoio à estruturação da cadeia produtiva da andiroba, com a instalação de uma miniusina, sistemas de rastreabilidade e melhorias no beneficiamento, aumentou a capacidade produtiva e agregou valor ao óleo, demonstrando que é possível gerar renda, fortalecer a autonomia das comunidades tradicionais e conservar a floresta por meio do uso sustentável de seus recursos.

Mais de 1.100 mulheres participaram diretamente do projeto e ocuparam funções estratégicas no cultivo, beneficiamento, pesquisa, comercialização e gestão das organizações apoiadas.

Foto: Lucas Ribas/PNUD

Mulheres como protagonistas da transformação 

Outro aprendizado relevante foi o papel central das mulheres na sustentabilidade das cadeias produtivas da sociobiodiversidade. Mais de 1.100 mulheres participaram diretamente do projeto e ocuparam funções estratégicas no cultivo, beneficiamento, pesquisa, comercialização e gestão das organizações apoiadas. 

Um dos exemplos é o da Cooperativa de Produção de Plantas Medicinais (Cooplantas), em Itaberá, São Paulo, formada por agricultoras de assentamento rural, que, desde 1995, transformam o cultivo de plantas medicinais em uma experiência coletiva de geração de renda, autonomia e cuidado com a saúde. 

Com o apoio do Projeto Fitoterápicos, a cooperativa modernizou sua agroindústria, fortaleceu sua gestão administrativa e financeira, implantou dez quintais agroflorestais com espécies medicinais nativas da Mata Atlântica e avançou no processo de certificação orgânica. Os resultados refletiram diretamente na ampliação das oportunidades econômicas, com crescimento de 170% na comercialização de fitoterápicos, aumento de 75% nas vendas do gel de babosa e a assinatura de 18 intenções de contrato, ampliando o acesso a novos mercados e demonstrando como o protagonismo feminino impulsiona o desenvolvimento sustentável e fortalece a economia da sociobiodiversidade.

Lições aprendidas e recomendações

A experiência do Projeto Fitoterápicos oferece aprendizados para iniciativas que buscam integrar conservação ambiental, saúde pública e desenvolvimento sustentável:

  1. Valorizar os conhecimentos tradicionais fortalece a inovação. Soluções duradouras surgem quando ciência e saberes ancestrais dialogam de forma respeitosa e complementar.
  2. O protagonismo comunitário é essencial para resultados sustentáveis. Investimentos geram mais impacto quando fortalecem organizações locais e ampliam a autonomia dos territórios.
  3. Conservação ambiental e geração de renda podem caminhar juntas. Proteger a biodiversidade também pode criar oportunidades econômicas para as comunidades. 
  4. A regulamentação deve considerar as especificidades dos saberes tradicionais. Processos participativos são fundamentais para garantir segurança jurídica sem descaracterizar práticas culturais e conhecimentos ancestrais.
  5. Capacitação e fortalecimento institucional ampliam o alcance dos resultados. Formação técnica, gestão, certificação e acesso a mercados são elementos tão importantes quanto os investimentos em infraestrutura.
  6. A participação das mulheres fortalece as cadeias produtivas e a governança local. Promover liderança feminina gera impactos positivos para a sustentabilidade econômica, social e ambiental dos territórios.
  7. Construir pontes entre comunidades, governo e instituições de pesquisa acelera transformações. A cooperação entre diferentes atores foi decisiva para converter conhecimentos tradicionais em políticas públicas, pesquisas e produtos de interesse coletivo.
     

O legado do Projeto Fitoterápicos demonstra que o futuro da saúde, da biodiversidade e do desenvolvimento sustentável passa pelo reconhecimento de quem, há gerações, preserva conhecimentos, territórios e formas de cuidado. Ao fortalecer essas comunidades, o projeto deixa uma contribuição concreta para um modelo de desenvolvimento que alia conservação ambiental, valorização cultural, justiça social e inovação.