Lançada na COP30, tradução dos ODS para Munduruku será adotada como material paradidático em escolas públicas de Jacareacanga (PA) em 2026.
Indígenas Munduruku levam Agenda 2030 para seu território
26 de Novembro de 2025
Cacique Arnaldo Kaba Munduruku, durante lançamento de cartilha ODS.
A chamada “territorialização” dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) ocorre com estratégias de participação e protagonismo das comunidades locais. Isso pode ser alcançado por meio de ações que permitam a disseminação do conteúdo da Agenda 2030 a partir de processos de educação e mobilização social.
Foi nesse contexto que a Universidade Estadual do Pará (UEPA), por meio do Núcleo de Formação Indígena (NUFI), em parceria com o PNUD, realizou o primeiro trabalho de tradução cultural da Agenda 2030 para a língua indígena Munduruku.
Batizada de “ODS YU AWAYDIP DAXIJOJOAM - Os ODS e os protetores da floresta”, a cartilha recebeu contribuições de 14 indígenas da etnia, entre eles, alunos do NUFI. O documento foi apresentado durante o painel “O protagonismo dos indígenas no processo de Desenvolvimento Sustentável”, realizado em 14 de novembro, durante a COP30 em Belém (PA).
“Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são muito importantes para a população indígena”, afirma o mestre em Educação e presidente da Associação Indígena Pusuru, João Kaba, que apoiou a tradução. Para ele, atingir o desenvolvimento sustentável é uma tarefa que demanda a inclusão e a participação das comunidades tradicionais, e a tradução para o Munduruku é mais um passo nesse sentido.
Assim como os demais estudantes e acadêmicos que contribuíram com a cartilha, João Kaba mora em Jacareacanga, cidade de maioria indígena localizada no sudoeste do Pará. O município participou do projeto “Acelerando o Desenvolvimento”, implementado pela Axia Energia (ex-Eletrobras), por meio da Companhia Hidrelétrica Teles Pires e em parceria com o PNUD. O projeto também teve a parceria da Prefeitura de Jacareacanga.
A cartilha com a tradução dos ODS será adotada como material paradidático a partir do ano que vem em escolas públicas municipais de Jacareacanga. Na opinião da gestora educacional e pesquisadora indígena Lili Xipaya, presente no evento da COP30, o documento “promove a soberania de vivência e bem-viver das comunidades indígenas”. “Devemos pensar o papel da escola na tradução dos ODS, que é apoiar o fortalecimento sociolinguístico do povo e dos nossos modos de vida diversificados”, conclui.
“Este trabalho é o primeiro passo para garantir que o povo Munduruku se aproprie dos ODS”, afirma a professora coordenadora do projeto, Joelma Parente. Segundo ela, a metodologia foi escolhida pelos próprios Mundurukus — uma estratégia para garantir o protagonismo dos indígenas no processo de tradução, evitando abordagens consideradas coloniais.
“A tradução refletiu os conceitos, e não apenas as palavras, porque a tradução também incluiu as imagens” que fazem referência a cada ODS, diz a coordenadora do escritório do PNUD em Belém, Kassya Fernandes. Todas as ilustrações da cartilha foram elaboradas pelo artista Flandenilson Waro Munuduruku, que representou os ODS por meio dos traços típicos da arte Munduruku.
Para a coordenadora do escritório do PNUD no Pará, os ODS são uma ferramenta importante para a valorização das identidades e o fortalecimento da cultura dos povos originários. “A cartilha não é apenas um documento de consulta, mas incorpora dinâmicas sociais, modos de vida e cosmovisões que existem apenas na língua Munduruku.”
A tradução dos ODS para a língua Munduruku é exemplo de iniciativa para a igualdade étnico-racial, representada pelo ODS 18, adotado voluntariamente pelo Brasil, lembra o coordenador-executivo da Comissão Nacional para os ODS (CNODS), Thiago Galvão, presente no evento de lançamento. “A gente precisa fazer essa tradução da agenda global para as características e peculiaridades da Amazônia, para que ela tenha representatividade para as comunidades que vivem ali.”
O apoio técnico e institucional oferecido no contexto do projeto “Acelerando o Desenvolvimento” foi essencial para garantir a produção da cartilha. O PNUD realizou oficinas formativas sobre desenvolvimento sustentável, oferecendo materiais de consulta e apoio sobre a Agenda 2030. “O resultado de todo esse esforço é um trabalho de territorialização culturalmente sensível e aprofundado”, diz Fernandes.
A cartilha “ODS Yu Awaydip Daxijojoam” está disponível para acesso por meio deste link.