Descobrir o Poder Interior: Mulheres e Energia a Impulsionar a Mudança

3 de Março de 2026
PNUD Angola

O acesso à electricidade molda a forma como as pessoas estudam, trabalham, comunicam e participam na vida económica. Em Angola, no entanto, o acesso continua desigual. Cerca de 52 por cento da população ainda vive sem electricidade, e nas zonas rurais o acesso desce para apenas 8,5 por cento.

Estas disparidades reflectem desigualdades mais amplas, incluindo quem tem acesso a competências, oportunidades e processos de tomada de decisão. Expandir o acesso à energia não é, portanto, apenas uma questão de cobertura, mas também de quem dela beneficia e de quem consegue transformá-la em oportunidade.

É deste modo que a ligação entre energia e empoderamento feminino se torna concreta. Quando o acesso à energia passa também a ser um meio para as mulheres reconhecerem o poder que têm dentro de si.


No Moxico, jovens mulheres de cooperativas rurais e centros de formação técnica participaram em sessões práticas de formação para a montagem e instalação de sistemas solares. Trabalhando com fios, baterias, interruptores e painéis solares, aprenderam a construir lâmpadas e sistemas domésticos básicos para comunidades fora da rede eléctrica.

A formação ligou-as ao conhecimento prático, ao mesmo tempo que reforçou algo menos tangível, mas igualmente importante: competências, confiança e um sentido da sua própria capacidade.

“Isso vai servir comunidades que não têm electricidade”, afirmou Fioneza Carnica. “E mostra a outras mulheres que também somos capazes de montar um protótipo, construir uma lâmpada e fazer uma instalação básica.”

Organizada pelo Ministério do Ambiente (MINAMB), em parceria com o PNUD, no âmbito do projecto de Energia Sustentável do Fundo Global para o Ambiente (GEF), a iniciativa tem como objectivo expandir a electrificação rural, colocando as mulheres no centro deste processo.

Para apoiar a formação, uma equipa da Belize Power Connect Limited (BPCL), sediada em Belize, um Pequeno Estado Insular em Desenvolvimento (SIDS) das Caraíbas, deslocou-se a Angola para partilhar a sua experiência.

Oriundas de comunidades com desafios semelhantes, as irmãs Miriam e Cristina Choc, juntamente com Florentina Choco e Abib Palma, trabalham em soluções solares geridas localmente e lideradas por mulheres.

A equipa da Belize Power Connect Limited (BPCL) em azul com formandas e RR do PNUD em Angola

PNUD Angola

“Crescemos em comunidades onde não havia electricidade nem comunicação”, explicou Palma. “Mesmo disponibilizar luz e uma forma de carregar um telemóvel pode abrir caminho para mais negócios, comunicação e, eventualmente, sistemas maiores.”

Para Miriam Choc, o percurso na área da energia solar começou quando foi seleccionada, juntamente com outras mulheres da sua comunidade, para frequentar formação técnica no estrangeiro.

“Na nossa cultura não foi fácil”, disse. “Não se esperava que as mulheres viajassem ou aproveitassem estas oportunidades.” Com o apoio da sua família, seguiu para a Índia, onde aprendeu a construir sistemas solares. Ao regressar, ajudou a electrificar a sua comunidade e, mais tarde, co-fundou uma empresa que hoje presta serviços de instalação, concepção de sistemas e formação.

Essa experiência transformou também a forma como as mulheres são vistas, e como se vêem a si próprias.

“Antes, as mulheres não podiam falar em reuniões nem assumir posições de liderança”, afirmou Miriam. “Agora, as coisas estão a mudar. As mulheres participam e tornam-se líderes nas suas comunidades.”

É esta mudança que a equipa de Belize continua a levar consigo para cada novo país onde trabalha. Não se trata apenas de transferir conhecimento técnico, mas de criar espaço para que as mulheres se envolvam directamente com esse conhecimento.

Há um momento que descrevem frequentemente: uma formanda termina a montagem do seu primeiro sistema. As ligações funcionam. A luz acende-se.

“É a alegria de ver aquela luz”, disse Palma. “Mas não é só a luz. É quando percebem o poder que têm dentro de si.”

Blurred-face person in a dark suit stands at a red conference table in a bright room.

À medida que Angola expande a electrificação rural através de energias renováveis descentralizadas, o impacto já é visível. Através da iniciativa Kurima, mais de 9.000 pessoas, 60% das quais mulheres, aumentaram a produção agrícola em mais de 50 hectares, utilizando sistemas de irrigação movidos a energia solar e centros comunitários de processamento para aumentar a produtividade e o rendimento.

No final da formação no Moxico, materiais solares foram entregues às associações de mulheres participantes, marcando o início do que poderá tornar-se uma rede crescente de técnicas locais.

Num contexto em que o Mês da Mulher destaca a importância da igualdade de oportunidades e da participação, esta experiência demonstra que o acesso, por si só, não é suficiente.

Porque quando as mulheres reconhecem o poder que têm dentro de si e dispõem das ferramentas para o utilizar, não há limites para o que podem construir, mudar e transformar.