Como o conserto de instrumentos empodera jovens baianos
Para além da música
14 de Abril de 2026
Eizy descobriu o ofício há oito anos por meio do Neojiba, uma iniciativa da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Estado da Bahia, implementada pelo Instituto de Desenvolvimento Social pela Música (IDSM) com apoio do PNUD.
Em uma oficina em Salvador (BA), o ar cheira a verniz, madeira e liga metálica polida. Ali, a baiana Eizy Helen Silva lustra e limpa uma flauta cuidadosamente, com concentrada precisão.
Menos de uma década atrás, ela nem sabia que a luteria – a arte de construir e consertar instrumentos musicais – existia. Agora, aos 26 anos, ela faz parte de uma geração crescente de luthiers na Bahia.
Afinação de novos futuros
Eizy descobriu o ofício há oito anos por meio do Neojiba, uma iniciativa da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Estado da Bahia, implementada pelo Instituto de Desenvolvimento Social pela Música (IDSM) com apoio do PNUD. O programa busca promover a inclusão social por meio da educação musical.
Para Eizy, o que começou como uma atividade extracurricular após o Ensino Médio evoluiu para uma carreira. “Uma porta de possibilidades se abriu”, diz ela, enfatizando como o programa oferece oportunidades para jovens cujas circunstâncias sociais e econômicas frequentemente limitam o acesso à educação e ao emprego.
Após o treinamento, conseguiu um emprego como luthier profissional no Neojiba. Hoje, 35 técnicos em luteria – 30 deles jovens – já foram capacitados pelo programa e juntos mantêm a orquestra jovem do Neojiba, com seus 2.000 músicos, afinada e em atividade.
Na Bahia, iniciativas como essa estão criando oportunidades para que jovens desenvolvam habilidades e garantam seu sustento. Isso é crucial, já que esse segmento da população enfrenta grandes desafios de emprego.
Embora a taxa de desemprego geral do Brasil esteja em níveis historicamente baixos, jovens adultos de 18 a 24 anos ainda enfrentam dificuldades para ingressar no mercado de trabalho.
Nesse contexto, o Neojiba ilustra como o desenvolvimento de habilidades pode capacitar jovens para a economia cultural, reduzir desigualdades e avançar em diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Como enfatiza Leonel Neto, chefe do escritório do PNUD em Salvador: “Esse trabalho possibilitou a formação de profissionais que expandiram suas atividades além do projeto, atendendo demandas de bandas marciais, escolas públicas e privadas que solicitam serviços de luteria em Salvador”.
Fundado há quase 20 anos, o Neojiba já alcançou mais de 42.000 crianças, adolescentes e jovens, promovendo o desenvolvimento social e a inclusão por meio da educação e prática musical coletiva.
Sua escola de luteria amplia ainda mais essa missão, desenvolvendo expertise técnica e abrindo oportunidades que geram renda e senso de propósito. O PNUD apoia a iniciativa desde 2009, auxiliando na importação de instrumentos e ferramentas para a orquestra, além de apoiar a oficina de luteria, que aumenta a vida útil desses equipamentos.
Como reflete Eizy: “Nenhum outro lugar oferece um treinamento técnico como esse. Mudou minha vida e me deu uma carreira que eu nunca imaginei”. Sua história ilustra como cultura, educação e emprego podem se cruzar para transformar vidas e ajudar a afinar novos futuros.
Na Liberdade, um dos bairros mais populosos e de maior ascendência afro na capital baiana, Marcelo Gavazza, 28 anos, vive e respira música.
Do coral ao ofício
Na Liberdade, um dos bairros mais populosos e de maior ascendência afro na capital baiana, Marcelo Gavazza, 28 anos, vive e respira música. Ingressou no Neojiba em 2012 como integrante do coral, mas sua paixão rapidamente o levou adiante: aprendeu a tocar violão, entrou para a orquestra e acabou descobrindo sua vocação na escola de luteria do Neojiba.
Em um seminário imersivo de duas semanas promovido pelo programa, Marcelo e outros jovens aperfeiçoaram suas habilidades como técnicos de instrumentos sob a orientação de especialistas internacionais, como Oskar Kappelmeyer (contrabaixo), Otto Hnatek (flauta, piccolo, oboé, clarinete, entre outros), André Marc Huwyler (violino, viola, violoncelo e contrabaixo) e Frederic Becker (arcos). Foram experiências variadas: oficinas especializadas, palestras, apresentações técnicas e atividades práticas desenhadas para reviver um ofício quase esquecido.
Embora o acesso a treinamentos e ferramentas acessíveis ainda seja limitado, o mercado brasileiro de luteria começou a crescer, gerando um nicho pequeno, mas em rápida expansão, de cerca de 9,8 milhões de reais por ano, representando cerca de 10% de todo o mercado de instrumentos musicais.
Refletindo sobre a experiência, Marcelo lembra: “Aprendemos que podemos substituir o pau-brasil por madeiras locais de Salvador”, especialmente para arcos, acessórios essenciais para instrumentos de corda como violinos e baixos, tradicionalmente feitos de pau-brasil e crina de cavalo para produzir o som pelo atrito nas cordas.
O impacto dos seminários vai muito além da técnica. Por meio desses intercâmbios com luthiers da Alemanha, Suíça e França, os participantes se conectaram a uma comunidade maior de prática, mostrando como uma iniciativa local pode se beneficiar da expertise internacional ao mesmo tempo em que constrói capacidades no Sul Global.
Para o luthier suíço André Marc Huwyler, envolvido no projeto desde 2009, o impacto é evidente. Os seminários, diz ele, são “experiências notáveis”. E continua: “Vi jovens ávidos para aprender, com resultados imediatos na conclusão de itens e consertos variados, mas também percebi que o seminário ajudou a preparar o futuro deles na luteria”.
A partir dessas lições, novos caminhos profissionais e oportunidades de negócios estão surgindo. Hoje, Marcelo tem seu próprio ateliê de luthier, mantendo a música viva em sua comunidade e atendendo a Liberdade e áreas vizinhas com serviços de conserto, manutenção e produção customizada de instrumentos.
Um modelo de desenvolvimento
Além de adquirir equipamentos e apoiar oficinas, a parceria do PNUD com o Neojiba fortalece a capacidade do programa de desenhar, implementar, monitorar e avaliar políticas públicas, fomentando a inclusão social, o empoderamento juvenil e o desenvolvimento sustentável.
Liderado pelo maestro brasileiro Ricardo Castro, o Neojiba se inspira no “El Sistema”, modelo lançado há cinco décadas na Venezuela. Essa abordagem agora é adaptada em outros países da região, como o Panamá, onde o PNUD apoia iniciativas de educação musical similares.
Para jovens como Eizy e Marcelo, e muitos outros que aprendem o ofício de luthier, essa oportunidade é mais que um emprego: é fonte de conhecimento, confiança e criatividade, capaz de proporcionar sustento e senso de empoderamento. Além da música, ela oferece aos jovens as ferramentas para afinar um futuro mais brilhante para si mesmos e para o Brasil.