Com as pessoas passando mais tempo em ambientes digitais e virtuais, há oportunidades para acelerar o desenvolvimento sustentável, mas é preciso analisar as preocupações com privacidade, direitos humanos, desigualdade e impacto ambiental.
Atravessando o metaverso enquanto se gerenciam riscos e oportunidades
5 de Setembro de 2022
Crédito: PNUD
Chanthou está voltando para sua casa na zona rural do Camboja depois de mais um longo dia de trabalho. Ela trabalha para uma marca de roupas de luxo, mas em vez de produzir bens físicos na fábrica de roupas próxima Chanthou elabora e vende roupas digitais para a empresa na forma de tokens não fungíveis, os chamados NFT. Sua experiência com arte cambojana, juntamente com seu talento criativo, tem ajudado a produzir artefatos digitais únicos, vendidos e negociados em muitos dos mundos virtuais descentralizados conhecidos coletivamente como "metaverso".
O cenário descrito acima é fictício, mas levanta questões importantes: seria esse um sonho utópico de #TechForGood que segue as últimas tendências ou representa oportunidades reais para progredir em relação aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)? Além disso, com cerca de 2,9 bilhões de pessoas ainda sem conectividade significativa à Internet, quais benefícios o metaverso oferece para o desenvolvimento sustentável?
Em consonância com o objetivo do PNUD de promover a transformação digital inclusiva, as tecnologias emergentes estão sendo aproveitadas como parte de uma abordagem holística para garantir que todas e todos se beneficiem das mudanças que essas tecnologias trazem. Nesse sentido, há oportunidades para acelerar o progresso nos ODS, assim como riscos que precisam ser gerenciados para evitar danos digitais e aumento das desigualdades.
Desmistificando o metaverso
O metaverso é uma rede crescente de mundos digitais virtuais e ampliados, paralelos ao mundo físico. Em termos simples, o metaverso pode ser pensado como a próxima grande evolução tridimensional da Internet (parte do motivo pelo qual esse grupo de tecnologias é geralmente chamado de Web 3.0).
Existem dois modelos amplos do metaverso – aberto e fechado. Os mundos fechados pertencem e são operados por empresas com um ecossistema independente ou “jardim murado”. Por outro lado, os mundos abertos são descentralizados e distribuem a propriedade para usuários e colaboradores.
Escassez digital e rastreabilidade são características definidoras do metaverso, habilitadas pela tecnologia blockchain. Essa capacidade de criar e vender ativos digitais “únicos” – em que a autenticidade da criação original pode ser comprovada – levou a uma enxurrada de Tokens Não Fungíveis (ou NFT) no setor criativo. Embora muito da dinâmica em torno da arte NFT possa ser uma moda passageira, tendências de sua estrutura, como a capacidade de rastrear e capturar vendas nos mercados digitais, podem durar muito mais.
Nos estágios iniciais do desenvolvimento do metaverso, há diversas oportunidades para acelerar os ODS, muitas dos quais estão sendo exploradas (como o exemplo descrito na história fictícia acima sobre Chanthou). Ao contemplar uma série de questões, o metaverso poderia ser efetivamente aproveitado para transformar e aprimorar a educação; melhorar os meios de subsistência e a geração de renda; acessar serviços públicos e privados; fortalecer a cooperação global e a construção da comunidade; aumentar o engajamento dos cidadãos; e possibilitar novos modelos de cooperação e colaboração.
Por outro lado, existem preocupações potenciais válidas que vão desde invasões de privacidade, violações de direitos humanos, aumento de desigualdades e perpetuação de preconceitos sociais, até preocupações ambientais sobre o uso de energia.
À medida que o metaverso evolui, ambientes de inovação seguros e relevantes precisarão ser financiados e estabelecidos de forma a criar um impacto positivo nos ODS. Assim, são propostas as seguintes três áreas práticas interligadas para foco imediato:
- Redobrar os esforços para eliminar a exclusão digital;
- Destacar perspectivas do Sul Global; e
- Criar sistemas baseados em normas legais.
Como a pandemia de COVID-19 evidenciou, existem consequências negativas crescentes associadas à exclusão digital.
Apesar do aumento da adesão à Internet durante a pandemia, a União Internacional de Telecomunicações informa que cerca de 2,9 bilhões de pessoas – cerca de 37% da população mundial – ainda não têm acesso à rede mundial de computadores. Desse total, 96% vivem em países em desenvolvimento. O relatório também aponta que, em escala global, as pessoas nas áreas urbanas têm duas vezes mais probabilidade de usar a Internet do que aquelas em áreas rurais. Além disso, existem diferenças de gênero significativas no acesso à tecnologia e a habilidades digitais, com 62% dos homens usando a Internet em comparação com 57% das mulheres em todo o mundo, e 31% dos homens versus 19% das mulheres nos países menos desenvolvidos.
Dadas essas desigualdades, configuradas irresponsavelmente, o rápido crescimento e o investimento no metaverso podem intensificar ainda mais a exclusão digital. Por exemplo, à medida que a educação, o trabalho e os serviços públicos dependem cada vez mais do acesso digital, a falta de conectividade se torna um obstáculo crescente ao desenvolvimento humano.
Contudo, investimentos em infraestrutura pública digital que permitam conectividade de forma inclusiva ajudarão bilhões de pessoas a aproveitar as novas oportunidades que o metaverso oferece. Além da disponibilidade e acessibilidade da conectividade física à Internet, também é essencial apoiar a alfabetização digital para garantir que todos possam participar do metaverso, de maneira segura e significativa, que melhore suas vidas.
Perspectivas do Sul Global
Há necessidade de mais inclusão de perspectivas diversas do Sul Global nessa cocriação. Muitos dos metaversos estabelecidos têm suas origens em empresas do Norte Global, como Meta, Epic Games e Microsoft. Criadores e participantes em mundos abertos de metaversos como Decentraland, Sandbox e Voxels também são predominantemente do Norte Global. Mas, à medida que milhões de novos usuários da Internet do Sul Global se conectarem na próxima década, como serão suas experiências virtuais?
As plataformas do metaverso que adotam uma estratégia mais inclusiva e diversificada desde o início podem se beneficiar mais em longo prazo, como vários estudos sobre transformação digital inclusiva mostram. Construir e projetar intencionalmente com os valores, perspectivas e talentos do Sul Global pode fortalecer o engajamento e a proposta de valor de diferentes plataformas do metaverso. Em termos práticos, isso pode significar desenvolver ampla gama de pacotes de idiomas, apoiar ecossistemas digitais locais e construir parcerias estratégicas com grupos sub-representados. Ter uma base de usuários globalmente representativa enriquece o ambiente de inovação e oferece uma realidade compartilhada comum para o discurso produtivo e a colaboração.
O PNUD pode facilitar o desenvolvimento de ambientes seguros para a cocriação e teste de conceitos com o Sul Global. No continente africano, Jambo é um exemplo prático e voltado para o futuro, já pioneiro em novas formas de construir comunidades “Web 3.0” na África. Ao investir em recursos e parcerias, muito mais pode ser feito para envolver e apoiar ecossistemas digitais inspirados localmente em todo o mundo.
Com mais pessoas passando muito tempo em ambientes digitais e virtuais, ter um sistema baseado em normas se torna ainda mais importante.
Nesses mundos virtuais, sem fronteiras e aparentemente sem jurisdição, a responsabilidade e o respeito pelos direitos humanos devem ser uma prioridade. Seja virtualmente, seja offline, o PNUD é forte defensor de uma abordagem baseada em normas para o desenvolvimento.
Se questões emergentes de privacidade de dados, segurança e desinformação não forem abordadas proativamente, elas podem prejudicar tanto os usuários finais quanto as próprias plataformas. O PNUD pretende apoiar os governos na adoção de uma abordagem proativa para proteger seus cidadãos no metaverso, defendendo os direitos humanos. Do mesmo modo, o PNUD poderá trabalhar em parceria com fornecedores de plataformas para integrar aos seus sistemas, de maneira ponderada e apropriada, uma abordagem centrada no usuário e baseada em normas.
Por meio do envolvimento em iniciativas como a DigitalX, a Digital Public Goods Alliance e pesquisa de Futuros Digitais, o PNUD já está trabalhando com um ecossistema emergente e diversas partes interessadas em ética no design de tecnologia. Esses esforços buscam priorizar e ampliar ferramentas para criar estruturas e salvaguardas de responsabilização, particularmente em contextos complexos de países em que a exclusão digital é maior.
Identidades digitais robustas e responsáveis (idealmente vinculadas a pessoas reais por meio de suas identidades legais), com a adequada supervisão, serão essenciais para as salvaguardas necessárias no metaverso. À medida que as inovações florescem, normas digitais abertas e mecanismos de governança responsáveis devem ser um denominador comum entre as plataformas emergentes.
Potencial do metaverso
O potencial total do metaverso só poderá ser desbloqueado quando todas e todos, em todos os lugares, puderem acessá-lo. Só então seremos capazes de realmente gerar uma comunidade global de usuários de forma a reduzir a exclusão digital e garantir que perspectivas diversas sejam incluídas, bem como protegidas, em um sistema apoiado em normas. Assim como o mundo físico em que vivemos, no metaverso o todo também é melhor do que se esperaria das partes individuais, pois a forma como elas se combinam adiciona qualidade diferente. Todos devem ter a oportunidade de compartilhar ideias, conhecimentos e experiências para fortalecer a sociedade, colaborar para o progresso da humanidade e proteger o planeta.
Voltando à promessa da Internet em suas origens, o metaverso poderá ainda fornecer uma plataforma niveladora para todos. Significará também garantir a participação de grupos vulneráveis e em risco da população, removendo barreiras tradicionais como geografia, etnia, riqueza econômica, entre outras. Nesse sentido, o PNUD está apoiando o desenvolvimento de infraestrutura pública digital inclusiva, que permita às pessoas participarem livremente do desenvolvimento e traçarem o caminho para um futuro inclusivo e sustentável.