Empoderamento de raparigas adolescentes na prevenção do VIH e da gravidez indesejada no Cuanza Sul

20 de October de 2023
Raparigas participam da sessão de bancada para aprender sobre saúde e bem-estar. @UNDP Angola/Leandro Lima

Raparigas participam da sessão de bancada para aprender sobre saúde e bem-estar. @UNDP Angola/Leandro Lima

Em todas as regiões do mundo, a educação sexual continua a ser um factor importante na saúde e no bem-estar das pessoas.

Neste aspecto, as mulheres e as raparigas enfrentam regularmente maiores riscos e vulnerabilidade à infecção, barreiras à informação e aos serviços de saúde. Em muitos casos, a falta de educação sexual e reprodutiva tem sido o principal motivo de gravidez precoce e infecção de doenças sexualmente transmissíveis à mulheres e meninas adolescentes na província do Cuanza Sul.

Cármen Domingos, uma jovem de 19 anos, descobriu que estava gravida há cerca de 5 meses. Surpreendida com a notícia de gravidez, Cármen lamenta o facto de não ter aprendido sobre sexualidade mais cedo, e diz que pretende usar a sua experiência para prevenir que o mesmo aconteça com outras raparigas.

“Eu não sabia como evitar a gravidez,” lamenta Cármen. “Mas agora que vou ter um bebé, quero aprender mais como cuidar de uma criança e como se prevenir de doenças sexualmente transmissíveis para evitar que outras meninas fiquem como eu.”

Cármen vive com os seus pais no Sumbe, província do Cuanza Sul e abandonou os estudos há três anos. Em 2022, ela juntou – se ao grupo de meninas que participa do projecto comunitário de prevenção de VIH/SIDA entre as meninas adolescentes e as mulheres jovens, implementado nas províncias de Benguela e do Cuanza Sul pela Ajuda de Desenvolvimento de Povo para Povo (ADDP) com o financiamento do Fundo Global, através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em Angola.

Cármen (segunda, da esquerda a direita) na companhia dos seus familiares no Sumbe. @UNDP Angola/Leandro Lima

Cármen (segunda, da esquerda a direita) na companhia dos seus familiares no Sumbe. @UNDP Angola/Leandro Lima

O projecto comunitário de prevenção de VIH/SIDA entre as meninas adolescentes está em curso desde 2021 e tem o objectivo de mobilizar mais de 60 mil meninas e jovens mulheres que se encontram fora do ensino escolar para participar nas sessões de bancadas onde se partilha ensinamentos sobre a vida sexual, prevenção de gravidez indesejável e doenças sexualmente transmissíveis.

“Tenho aprendido muito ao lado de outras meninas nas sessões de bancadas,” diz Cármen num tom animado. “Antes de me juntar ao grupo, eu não falava com ninguém, mas hoje já sei como o VIH é transmitido e como devo me cuidar para não ser infectada por essa doença.”

No Cuanza Sul, cerca de 300 mulheres e meninas participam nas sessões de sensibilização de bancadas. As meninas inscritas no projecto são organizadas em grupos aproximadamente de 25 - 30 meninas, onde uma menina tem o papel de líder do grupo. As meninas com capacidades de aprendizagens rápidas e entusiasmo são treinadas para trabalhar como educadoras de par a fim de identificar e mobilizar as outras meninas que estão fora do sistema de ensino para participar no projecto das bancadas.

A jovem Ana Alexandre, de 22 anos de idade, é uma das líderes de grupo das bancadas. Ela considera importante falar e ensinar abertamente sobre a educação sexual com as raparigas para que elas não procurem informações em lugares errados e para que não cometam erros.

Ana Alexandre partilha suas experiências durante a sessão de bancada no Cuanza Sul. @UNDP Angola/Leandro Lima

Ana Alexandre partilha suas experiências durante a sessão de bancada no Cuanza Sul. @UNDP Angola/Leandro Lima

Ana Alexandre partilha suas experiências durante a sessão de bancada no Cuanza Sul. @UNDP Angola/Leandro Lima

“Depois de começar a participar nas sessões de bancada, eu aprendi muita coisa. Hoje já não tenho vergonha de falar sobre sexualidade com ninguém. Actualmente, a minha irmã pequena pode chegar até a mim e perguntar coisas que tem a ver com o corpo dela e sobre a sexualidade eu lhe respondo normalmente e com clareza,” diz Ana.

“Falar sobre sexo é tabú no lar de muitas raparigas, incluindo na minha.”

De acordo com a Ana, os pais desempenham um papel importante na educação dos filhos. Ao passar informação precisa e apropriada sobre sexualidade e saúde reprodutiva no seio familiar, muitas meninas aprendem a terem cuidados necessários na prevenção da gravidez indesejável e a exposição às doenças sexualmente transmissível. Entretanto, Ana lamenta porque isso não é realidade no lar de muitas raparigas, incluindo na sua própria família.

 

“Eu tinha muita vergonha e não falava disso com ninguém. Esse assunto sempre foi um tabú em casa porque os meus pais pensam que, falando sobre o sexo e gravidez, estariam a dar uma permissão para que eu tenha mais de um namorado,” lamentou Ana.

Assim como a Cármen e outras meninas do seu grupo de bancadas, Ana encontra – se fora do sistema de ensino e confessa já ter cometido muitos erros por falta de conhecimento que ela hoje tem recebido do projecto do Fundo Global.

“O facto de eu não ter aprendido sobre sexualidade em casa levou – me a cometer vários erros,” diz ela. “Chegou um momento que eu já não conseguia me socializar na escola. Bastava ouvir conversas sobre sexo, eu levantava e me isolava no meu canto e não tomava iniciativa de fazer amizades com colegas rapazes porque tinha vergonha.”

Ana partilha o seu sonho de se tornar Engenheira de Energias Renováveis. @UNDP Angola/Leandro Lima

Ana Alexandre partilha suas experiências durante a sessão de bancada no Cuanza Sul. @UNDP Angola/Leandro Lima

O projecto comunitário de prevenção contra o VIH, também denominado “bancadas”, tem ajudado meninas de faixas etárias entre dez e 24 anos de idade, com gravidez precoce, como a Cármen, a aprender a lidar com os diferentes estágios da gravidez e a incentivar outras raparigas tais como a Ana, que apesar de estar fora do ensino escolar, pretendem continuar a sonhar com um futuro melhor.