No Centro de Transformação Rural, agricultores, jovens e empreendedoras aprendem competências que aplicam no dia-a-dia. Alguns já começam a passá-las a outros.
Competências no centro da transformação rural
10 de Setembro de 2026
"O curso alterou realmente a minha maneira de pensar como gerir o negócio", diz Teresa Baptista, formanda do Centro de Transformação Rural (CTR). O tema de que mais gostou foi o de compras e vendas. Hoje olha de outra forma para o que um negócio precisa: espaço, marketing, produtos de qualidade e, sobretudo, os clientes. "Devemos preocupar-nos com o mercado e com aquilo que o cliente quer, com os preços, porque os clientes também nos ajudam a ganhar dinheiro."
É uma aprendizagem que muitas regiões rurais, tal como no município de Dombe Grande, na província de Benguela, têm procurado. A agricultura continua a ser uma importante fonte de sustento e a falta de electricidade ainda faz parte do dia-a-dia: "Falar de Energia no Dombe Grande ainda é um desafio", disse Antonieta Tcionga, directora da escola Santa Ana. Foi aqui que o PNUD Angola instalou o primeiro piloto do programa Kurima em Benguela, em parceria com a SEIVA e a Fundacão Ondjyla, que já davam assistência técnica a agricultores da zona.
Para isso, o espaço foi reabilitado. Doze painéis solares alimentam uma electrobomba que leva a água até um tanque, e um forno solar permite processar alimentos enquanto houver sol. O forno ajuda também o Centro a sustentar-se, criando assim uma fonte de rendimento à comunidade com a comercialização de produtos feitos no próprio centro. O CTR e a ludoteca dedicados à aprendizagem e ao desenvolvimento das crianças foram inaugurados em 2025.
Como a agricultura é a base da região, parte das formações acontecem no próprio campo. Num "Laboratório no Campo", agricultores e técnicos agrícolas aprenderam métodos simples de análise do solo, a interpretar os resultados e a usá-los nas decisões sobre fertilização e cultivo.
O Centro tem também o seu primeiro campo experimental de ginguba. Nas quatro edições da formação em produção desta cultura, 118 formandos acompanharam todo o ciclo, da sementeira à colheita e ao embalamento, e ficaram a conhecer melhor o que a ginguba pode render.
Nem todas as oportunidades passam pelo campo. No curso de Pastelaria, contando actualmente com duas edições onde 634 jovens e empreendedoras fizeram, em duas semanas, bolos, salgados e doces com ingredientes locais, entre eles a própria ginguba, e aprenderam a cuidar da higiene, da qualidade e da apresentação dos produtos.
Isaías Félix Andrade, uma vez formando, será agora formador.
Já na formação de Electricidade de Baixa Tensão, as 60 horas de prática para 18 formandos passaram por instalações residenciais, iluminação, tomadas, quadros eléctricos, diagnóstico de avarias e segurança, sendo uma competência que abre caminho ao emprego e auto-emprego, e que serve também outras actividades produtivas, como a agricultura e a mecanização.
Saber produzir é só uma parte do negócio. Na terceira edição do Curso de Gestão e Sustentabilidade, 56 participantes das comunidades rurais trabalharam gestão financeira e contabilidade, empreendedorismo, análise SWOT e estratégia de negócio.
Aprenderam também competências digitais práticas, como criar um e-mail e efectuar o registo na AGT para a formalização dos seus negócios. Após a conclusão do curso, todos os formandos continuam a contar com o apoio do Centro para concluir o processo de registo junto da AGT.
Vitória Lucinda Domingos, que frequentou o curso de Gestão, ficou com uma ideia: muitos negócios assentam sobretudo no lado técnico, e isso não chega. "Para elevarmos o nosso negócio, temos de ser três em um: empreendedor, gestor e técnico."
Alguns já começam a transmitir o que aprenderam. Isaías Félix Andrade e Maria Tchakinda, formandos do curso de Pastelaria, vão agora iniciar-se como formadores.
Para João Chimanda, Administrador Municipal do Dombe Grande, é isto que está em jogo: "Os nossos jovens, para produzirem, precisam de estar bem preparados. Este projecto tem grande relevância para nós, porque teremos jovens preparados para empreender."
O Dombe Grande é uma das frentes do Kurima, o programa do PNUD Angola que junta energia renovável, competências digitais e inclusão de género nas comunidades rurais. Em quatro províncias, 9.523 pessoas, 60% delas mulheres, passaram a ter acesso a energia renovável, inclusive para uso produtivo, da irrigação solar à transformação de alimentos.
Hoje, nas províncias de Benguela, Huíla e Uíge, o Kurima continua a levar soluções de energia renovável e novas competências às comunidades rurais. No Dombe Grande, algumas dessas aprendizagens já começam a seguir um novo caminho: de quem aprendeu para quem agora vai ensinar.