Nossa região tornou-se protagonista da final da Copa não só por meio dos jogadores que disputaram o torneio, mas também por meio da música, enviando ao mundo mensagem de unidade, harmonia e esperança.
Quando a cultura é desenvolvimento
30 de Julho de 2026
O PNUD mantém parceria com o maestro Gustavo Dudamel e o programa de educação musical venezuelano El Sistema, que envolve campanha mundial para mobilizar recursos em prol da recuperação da Venezuela após os terremotos recentes. A mobilização inclui “Um Concerto pela Venezuela” no próximo 23 de agosto, em Los Angeles.
A final da Copa do Mundo da FIFA é o evento televisivo mais assistido do mundo. Neste ano, a América Latina e o Caribe brilharam duplamente diante de mais de um bilhão de pessoas.
Nossa região tornou-se protagonista da final da Copa não apenas por meio dos jogadores que disputaram o torneio, mas também por meio da música, enviando ao mundo uma mensagem de unidade, harmonia e esperança. Sob a regência do maestro venezuelano Gustavo Dudamel, integrantes da Filarmônica de Nova York e da Orquestra Sinfônica Simón Bolívar da Venezuela fizeram juntos uma apresentação histórica.
A parceria de mais de duas décadas que mantemos no PNUD com Gustavo Dudamel e o Sistema Nacional de Orquestras e Coros Juvenis e Infantis da Venezuela, chamado “El Sistema”, me deu, neste mês, a oportunidade de receber em nossa sede integrantes da Orquestra Sinfônica Simón Bolívar. Um grupo extraordinário de jovens entre 18 e 28 anos viajou de uma Venezuela -- que inicia um profundo processo de cura e recuperação após devastadores terremotos -- rumo à cidade de Nova York, para colaborar com uma das orquestras mais importantes do mundo e levar o poder transformador da música a todos os cantos do planeta, sob a regência do maestro venezuelano — um fato histórico que deve nos encher de profundo orgulho como região.
A música não apaga o sofrimento nem substitui a urgência. Mas pode fazer algo profundamente humano: unir as pessoas, manter viva a esperança e lembrar ao mundo que, mesmo em meio à tragédia, a colaboração e a criatividade continuam sendo uma força capaz de eliminar fronteiras, produzir harmonia e criar beleza. Elas demonstraram isso ao quebrar o paradigma da música erudita como algo elitista e excludente, integrando-a ao pop, ao rock e ao afro-fusion de um elenco de artistas que inclui a também latino-americana e caribenha Shakira, além de Madonna, Justin Bieber, BTS, Burna Boy e o Coro PS 22 (com a participação de Coldplay).
Esse momento simbólico reflete também um fenômeno mais amplo. Cada vez mais, a cultura de nossa região ocupa os palcos internacionais. Da música e do cinema à gastronomia e ao turismo, a América Latina e o Caribe chegam hoje a milhões de pessoas por meio de suas expressões culturais que refletem nossa essência. Isso nos leva a uma pergunta mais profunda: a crescente visibilidade cultural de nossa região pode se transformar em um motor de desenvolvimento, inclusão e coesão social?
A América Latina e o Caribe possuem um ativo estratégico que, por muito tempo, foi subestimado: sua riqueza cultural. Com 8% da população mundial, a região abriga cerca de 10% dos sítios do Patrimônio Mundial, seis dos 17 países megadiversos e mais de 300 línguas indígenas. Essa diversidade desperta hoje um interesse internacional crescente e oferece uma oportunidade única para impulsionar o desenvolvimento.
As evidências estão cada vez mais visíveis. Artistas latino-americanos e caribenhos lideram paradas musicais, as produções audiovisuais da região recebem os mais altos reconhecimentos internacionais, e milhões de pessoas descobrem a região por meio de sua cultura. Em 2026, as buscas para aprender espanhol aumentaram significativamente após o show do intervalo do Super Bowl protagonizado pelo artista Bad Bunny. Nesse mesmo ano, pela primeira vez, um álbum em espanhol ganhou o Grammy de Álbum do Ano. O mundo está ouvindo a América Latina e o Caribe como nunca antes.
No entanto, a visibilidade não se traduz automaticamente em desenvolvimento. Hoje, a região emprega cerca de 6,9% de sua força de trabalho em atividades criativas, acima da média global. Entretanto, continua atrasada no registro de marcas, patentes e desenhos industriais. Em outras palavras, gera muito valor, mas capta menos do que poderia. Ao mesmo tempo, muitos criadores enfrentam a informalidade, o acesso limitado a financiamento e a pouca proteção de sua propriedade intelectual.
Investir em cultura significa muito mais do que apoiar um setor econômico. Significa investir em pessoas, criar comunidade e construir identidade. Cada escola de música, biblioteca, centro cultural ou espaço artístico amplia capacidades, fortalece comunidades e abre oportunidades para que crianças e jovens desenvolvam plenamente seu potencial. A criatividade também constrói cidadania, fortalece a confiança e cria vínculos onde, muitas vezes, existem divisões.
Por isso, transformar a visibilidade internacional em desenvolvimento exige a construção de ecossistemas que permitam que esse talento floresça. São necessárias políticas que fortaleçam as indústrias criativas, impulsionem a inovação, ampliem o acesso a financiamento, protejam o patrimônio cultural e conectem o reconhecimento global a oportunidades locais.
Esse é o moto por trás da parceria entre Gustavo Dudamel, o El Sistema e o PNUD. Após os catastróficos terremotos que atingiram a Venezuela, unimos forças em uma campanha mundial para mobilizar recursos em prol de uma recuperação digna e focada nas pessoas. Essa mobilização incluirá o “Um Concerto pela Venezuela”, no próximo 23 de agosto, em Los Angeles, que destinará 100% da bilheteria a uma plataforma de financiamento coletivo (crowdfunding) aberta à colaboração de todos.
Quando a Filarmônica de Nova York e a Orquestra Sinfônica Simón Bolívar dividiram o palco na final da Copa do Mundo de futebol, os breves minutos do tributo que conectou nossos corações aos de nossos irmãos e irmãs venezuelanos foram poderosos. Mas seu efeito pode transcender o tempo e o espaço ao transformar nosso imaginário coletivo como região, especialmente o de nossos jovens, expandindo o horizonte do possível.
Isso é cultura. Parte inseparável da nossa história. Nas horas mais difíceis, ela nos permite processar coletivamente a dor e, ao mesmo tempo, sonhar juntos o nosso futuro. Quando a América Latina e o Caribe brilharam duplamente no encerramento do mundial de futebol, além de inspirar o mundo, podemos nos reconhecer como sociedade e conceber a cultura como um motor de desenvolvimento e de construção coletiva de nosso porvir.