A despeito de avanços significativos, riscos associados à IA podem inaugurar nova era de divergência à medida que se ampliam lacunas de desenvolvimento entre países, aponta relatório do PNUD.
IA: possibilidades de desenvolvimento e gestão de riscos
20 de Dezembro de 2025
“A Próxima Grande Divergência: Por que a IA pode ampliar as desigualdades entre países” destaca que a IA cria possibilidades de desenvolvimento, mas os países partem de posições desiguais para extrair os benefícios e administrar os riscos.
Nova York – Sem uma gestão adequada, a inteligência artificial (IA) pode aumentar as desigualdades entre os países ao ampliar as diferenças no desempenho econômico, nas capacidades das pessoas e nos sistemas de governança, já que os pontos de partida são muito distintos. A conclusão é de um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
O documento, intitulado “A Próxima Grande Divergência: Por que a IA pode ampliar as desigualdades entre países”, destaca que, embora a IA abra novas e importantes possibilidades de desenvolvimento, os países partem de posições extremamente desiguais para capturar benefícios e administrar riscos. Sem políticas públicas robustas, essas lacunas podem crescer ainda mais, revertendo a tendência de longo prazo de redução das desigualdades de desenvolvimento.
A Ásia e o Pacífico, região que abriga mais de 55% da população mundial, está no centro dessa transição. A região concentra agora mais da metade dos usuários globais de IA e expande rapidamente sua presença inovadora — da ascensão da China, responsável por quase 70% das patentes globais de IA, ao surgimento de mais de 3.100 novas empresas financiadas de IA em seis economias. A IA pode elevar o crescimento anual do PIB na região em cerca de 2 pontos percentuais e aumentar a produtividade em até 5% em setores como saúde e finanças. Só as economias da ASEAN podem somar quase US$ 1 trilhão ao PIB ao longo da próxima década.
Ao mesmo tempo, milhões de empregos — especialmente ocupados por mulheres e jovens — estão altamente expostos à automação, caso princípios essenciais de governança ética e inclusiva da IA não sejam considerados.
“A IA está avançando rapidamente, e muitos países ainda estão na linha de partida”, afirmou a Secretária-Geral-Assistente da ONU e Diretora Regional do PNUD para Ásia e Pacífico, Kanni Wignaraja. “A experiência da Ásia e do Pacífico mostra quão rapidamente podem surgir lacunas entre aqueles que moldam a IA e aqueles que estão sendo moldados por ela.”
Ao longo de significativa parte dos últimos cinquenta anos, muitos países de baixa renda reduziram gradualmente a distância em relação aos países de alta renda, impulsionados por avanços em tecnologia, comércio e desenvolvimento. Essa “era da convergência” trouxe melhorias significativas em saúde, educação e renda. O relatório alerta que, sem decisões políticas deliberadas e inclusivas, a IA pode agora corroer os avanços dessa convergência.
A preparação digital varia muito na região. Países como Singapura, Coreia do Sul e China estão fazendo investimentos substanciais em infraestrutura e capacitação para IA, enquanto outros ainda trabalham para fortalecer o acesso digital básico e a alfabetização. Desenvolver essas capacidades será fundamental para garantir que todos os países possam aproveitar as oportunidades trazidas pela IA.
A falta de infraestrutura, habilidades, poder computacional e capacidade de governança limita o potencial da IA e amplifica riscos — incluindo perda de empregos, exclusão de dados e impactos indiretos, como o aumento da demanda global por energia e água associado a sistemas intensivos de IA.
Mulheres e jovens enfrentam vulnerabilidades específicas. Empregos ocupados por mulheres têm quase o dobro de exposição à automação, e o emprego juvenil já está caindo em funções de alta exposição à IA, especialmente entre pessoas de 22 a 25 anos, prejudicando perspectivas profissionais iniciais. No Sul da Ásia, mulheres têm até 40% menos probabilidade que homens de possuir um smartphone. Comunidades rurais e indígenas muitas vezes permanecem invisíveis nos conjuntos de dados que treinam sistemas de IA, aumentando o risco de vieses algorítmicos e exclusão de serviços essenciais.
Por outro lado, a IA está transformando a governança e os serviços públicos na região. A plataforma Traffy Fondue, em Bangkok, já processou quase 600 mil registros de cidadãos, permitindo que órgãos municipais respondam com mais eficiência a problemas cotidianos. O serviço Moments of Life, em Singapura, reduziu a papelada necessária para novos pais de cerca de 120 para 15 minutos. Em Pequim, gêmeos digitais — representações virtuais em tempo real de sistemas ou objetos físicos — estão apoiando o planejamento urbano e a gestão de enchentes. Esses exemplos mostram o potencial da IA para aprimorar a administração pública e a prestação de serviços.
Ainda assim, poucos países têm regulamentações abrangentes sobre IA — e até 2027 mais de 40% das violações globais de dados relacionadas à IA podem decorrer do uso inadequado de IA generativa, reforçando a necessidade de estruturas de governança robustas. Esse é um ponto central de “correção de rumos” para muitos países da região e de outras partes do mundo.
“A linha de fratura central na era da IA é a capacidade”, declarou o economista-chefe do PNUD para Ásia e Pacífico, Philip Schellekens. “Países que investirem em capacitação, poder computacional e sistemas sólidos de governança vão se beneficiar. Os demais correm o risco de ficar muito para trás.”
O relatório mostra caminhos para transformar esse risco em progresso compartilhado.
CONTATOS PARA A IMPRENSA
Em Bangkok:
Aminath Mihdha – Especialista em Parcerias e Comunicação – aminath.mihdha@undp.org
Em Nova York:
Raul de Mora Jimenez – Especialista em Comunicação – raul.de.mora@undp.org