Alerta foi feito na abertura do evento, que reuniu milhares de pessoas em São Paulo (SP) para ampliar o engajamento pelo desenvolvimento sustentável.
Momento de agir pela Agenda 2030 é agora, diz chefe do PNUD Brasil na Virada ODS
21 de Junho de 2023
A representante-residente do PNUD Brasil, Katyna Argueta, durante abertura da Virada ODS, em São Paulo (SP).
Estamos na metade do período estabelecido para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030. Após retrocessos globais provocados por pandemia, conflitos geopolíticos e a volta de processos inflacionários, o momento de agir é agora.
O alerta foi feito pela representante-residente do PNUD no Brasil, Katyna Argueta, que esteve em São Paulo (SP), na sexta-feira (16), para participar da abertura da Virada ODS, ação pública local de conscientização e engajamento em prol da Agenda 2030.
“O último Relatório do Secretário-Geral da ONU mostrou que apenas 12% dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável estão avançando no mundo. O progresso em 50% deles é fraco ou insuficiente e, pior ainda, paramos ou retrocedemos em mais de 30% dos Objetivos Globais”, disse Argueta.
“É preciso agir agora para ‘virar a maré’. Para isso, é necessário não apenas um esforço de maior investimento e financiamento, mas também uma mudança na forma de fazer política pública. Em particular, é necessário fortalecer as instituições e melhorar sua governança, reforçar as alianças e considerar horizontes temporais mais longos no desenho das políticas públicas.”
Realizada pela Prefeitura de São Paulo com apoio do PNUD e da ONU Brasil, a Virada ODS reuniu milhares de pessoas no centro da capital paulista no último fim de semana em uma programação diversa de cunho cultural e educativo com painéis temáticos, shows, feira de negócios, hackathon e um Congresso Internacional, que também foi transmitido online.
No evento de abertura ocorrido no Museu de Arte de São Paulo (Masp), a chefe do PNUD Brasil cumprimentou a Prefeitura de São Paulo por sua iniciativa de realizar a Virada ODS, destacando ainda a criação da Comissão Municipal para o Desenvolvimento Sustentável da Cidade de São Paulo.
“Desde sua concepção, a Agenda 2030 reconhece o papel fundamental dos municípios no planejamento, execução e prestação de contas no cumprimento dos ODS. Num contexto de desafios globais para a construção de um desenvolvimento sustentável – colocando as pessoas no centro, sem deixar ninguém para trás –, a transformação passa necessariamente pelo nível local”, salientou.
O PNUD apoiou a Secretaria Municipal de Relações Internacionais na mobilização de atores sociais, governamentais e econômicos para a Virada ODS 2023, tendo como base sua experiência no Brasil e em mais de 170 países.
Além da curadoria dos participantes do Congresso Internacional, a parceria entre PNUD e Secretaria Municipal de Relações Internacionais vai sistematizar o conhecimento gerado na Virada ODS deste ano, disseminar boas práticas identificadas no evento, além de viabilizar programa de capacitação para Agentes e Voluntários ODS.
A abertura do evento teve a presença do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, e da secretária municipal de Relações Internacionais, Marta Suplicy, que falaram sobre a importância da atuação dos municípios na implementação da Agenda 2030, levando os ODS para a realidade cotidiana.
Nunes enfatizou a importância da parceria com o PNUD para a realização da Virada ODS e comemorou a ampliação do índice de cobertura vegetal do município, que passou de 48% em 2020 para 54% neste ano. “Conseguir ampliar as áreas de cobertura vegetal é algo significativo. As secretarias estão comprometidas com a qualidade de vida das pessoas”, declarou.
“É preciso traduzir os ODS para a população. Aqui, a administração pública tem um plano de ação com prioridade para o alinhamento à Agenda 2030. Elaboramos Relatório Voluntário Local [avaliação sistemática do cumprimento da Agenda 2030 pelo município] e temos uma Comissão ODS para engajamento da sociedade civil”, disse Marta Suplicy.
A abertura da Virada ODS no Masp se encerrou com a palestra de Ayo Tometi, cofundadora do movimento de combate à violência policial Black Lives Matter. Ela contou sua trajetória no movimento iniciado em 2013, após a absolvição do segurança particular George Zimmerman no processo relacionado à morte a tiros do adolescente afro-americano Trayvon Martin.
A coordenadora da área programática do PNUD Brasil, Maristela Baioni, mediou painel sobre mudança global do clima na Virada ODS, em São Paulo (SP).
Congresso Internacional
No sábado (17) e no domingo (18), a Virada ODS continuou com o Congresso Internacional, que teve mesas de diálogo sobre temas-chave da Agenda 2030, incluindo mudança global do clima, combate ao racismo e à xenofobia, sustentabilidade corporativa, entre outros.
O painel sobre mudança global do clima, no sábado (17), teve mediação da coordenadora da área programática do PNUD, Maristela Baioni, e a presença do climatologista brasileiro Carlos Nobre, da jornalista ambiental Daniela Chiaretti e do artista e ativista ambiental Mundano.
Em sua fala, Nobre lembrou que mais de 70% das emissões globais de CO2 têm conexão com a demanda das cidades. “No Brasil, 75% das emissões vêm do desmatamento e da produção agrícola. A maior parte do consumo desses produtos acontece nas cidades, indiretamente responsáveis pelas emissões.”
Segundo Nobre, o Brasil tem condições de ser o primeiro país com grandes emissões a zerá-las até 2040 caso implemente a agropecuária regenerativa – que restaura a biodiversidade degradada – e proteja as terras indígenas. “O conhecimento dos povos indígenas é fator fundamental para salvarmos nosso planeta”, defendeu.
“Precisamos aprender com os povos indígenas e entender que nós somos a natureza. Eu não estou defendendo a natureza, eu sou a natureza, então, estou me defendendo”, afirmou o artista e ativista ambiental Mundano, fundador da ONG Pimp My Carroça e do aplicativo Cataki, que apoia o trabalho dos catadores de materiais recicláveis no país.
Mundano explicou que, apesar de 90% da reciclagem do Brasil ser feita por catadores, eles recebem pouco ou nenhum apoio financeiro dos setores público e privado, mesmo realizando um serviço público. Acabam vivendo, na maior parte das vezes, em situação de vulnerabilidade social e extrema pobreza, salientou.
Para a jornalista ambiental Daniela Chiaretti, do jornal Valor Econômico, a comunicação e o jornalismo são essenciais para termos sucesso na ação climática. Além disso, é necessário construir alternativas de geração de renda para quem hoje vive da degradação da floresta. “Temos que ter projetos e soluções sustentáveis para essas pessoas.”
A analista de Gênero e Raça do PNUD Brasil, Ismália Afonso, durante painel sobre combate ao racismo e à xenofobia da Virada ODS, em São Paulo (SP).
No painel sobre combate ao racismo e à xenofobia, no domingo (18), a fundadora do movimento Mães de Maio, Débora Maria da Silva, detalhou os anos de luta por justiça após a morte de seu filho em Santos (SP) nos massacres de 2006, quando centenas de pessoas, principalmente negras, foram mortas pela polícia no Estado de São Paulo.
Referência na luta contra a violência policial no Brasil, Débora questionou o papel da segurança pública no país, afirmando que esta foca apenas na proteção da propriedade privada. “Essa igualdade que procuramos é uma reparação da escravatura. Esse é um dos pilares da democracia que estamos tentando conduzir como mães.”
A mesa de diálogos também teve a presença da analista de Gênero e Raça do PNUD, Ismália Afonso, a qual explicou que o racismo institucional é a incapacidade de as organizações públicas e privadas garantirem o direito de todas as pessoas, incluindo pessoas negras, indígenas, refugiadas, migrantes.
“O racismo não se expressa como algo técnico, não é simplesmente a ausência de uma política de prevenção. Ele se expressa no campo das crenças, das ideias, é ideológico e político. Por isso, só conseguiremos acabar com o racismo quando houver democratização do poder. As pessoas negras precisam estar representadas nos cargos eletivos, ocupar cargos de liderança nos setores público e privado.”
O tema da xenofobia e do racismo também foi abordado pela refugiada congolesa e presidente do Conselho Municipal de Imigração de São Paulo, Hortense Mbuyi. “Estou aprendendo no Brasil sobre racismo. Há discriminação por causa da cor da pele. É dolorido, porque é continuidade do sistema escravagista.”
O coordenador da área de Desenvolvimento Socioeconômico Inclusivo do PNUD Brasil, Cristiano Prado (segundo, da direita para a esquerda), durante painel na Virada ODS.
O Congresso Internacional da Virada ODS encerrou-se com o painel “ESG e ODS: Governança para a Sustentabilidade, que teve a participação do coordenador da área de Desenvolvimento Socioeconômico Inclusivo do PNUD Brasil, Cristiano Prado.
Na ocasião, ele enfatizou a importância do setor privado para atingirmos a Agenda 2030 no Brasil e no mundo. "Precisamos de US$4 trilhões por ano para atingir os #ODS até 2030. É necessário o engajamento do setor privado. Sem isso, não vamos conseguir. O ESG, a governança dos riscos ambientais, corporativos e sociais, é uma porta de entrada", disse.
Para a advogada e influenciadora digital Gabriela Prioli, as grandes empresas precisam se responsabilizar pelos danos socioambientais provocados por suas atividades, incluindo suas cadeiras produtivas. “É injusto colocar essa responsabilidade nas costas do consumidor. Quanto mais houver parceria para que haja fiscalização do setor público, melhor.”
A mesa também teve a participação do diretor da Transparência Internacional, Renato Morgado, que defendeu o papel do Estado na regulação das atividades das grandes empresas e de setores econômicos como o agronegócio.
Nos dois dias de evento, a programação da Virada ODS terminou com shows de Maria Rita, Planta e Raiz, Olodum, Nação Zumbi e Francisco El Hombre no Vale do Anhangabaú. As crianças tiveram seu espaço no palco infantil, onde aprenderam sobre a importância de construir um mundo sustentável.
Público do Congresso Internacional da Virada ODS, em São Paulo (SP).