Série de histórias mostra como o Projeto Justiça Centrada nas Pessoas (JCP), uma parceria entre o PNUD, o TRF5 e a JFCE, vem transformando o jeito de fazer justiça no Ceará e na região.
Quando a Justiça muda o olhar, vidas encontram um lugar para começar de novo
5 de Maio de 2026
Por mais de 15 anos, Aristóteles viveu nas ruas de Fortaleza (CE). Hoje, aos 54 anos de idade, ele tem especialização em mecânica e instalação de motos.
Aristóteles viveu a infância no bairro Jardim Iracema, na periferia de Fortaleza (Ceará). Seu nome é o mesmo de seu pai. “Vem do filósofo grego”, explica orgulhoso. Ele tem uma irmã, perdeu um irmão e mantém pouco contato com a família.
Hoje, Aristóteles tem 54 anos de idade. Tem especialização em mecânica e instalação de motos. Depois que sofreu um acidente, ficou impedido de trabalhar por causa de uma deficiência na mão esquerda. Com o desemprego, em 2010, passou a viver em situação de rua. “Eu trabalhava na oficina de moto, na (rua) Clarindo de Queiroz. Depois que eu me acidentei, foi como desmoronar tudo”, lamenta.
Entre sonos em bancos de praças, calçadas e temporadas em casas de passagem, Aristóteles viveu em diferentes bairros de Fortaleza até se estabelecer no centro da capital por ter maior rede de apoio a pessoas em situação de rua. “Eu ficava aqui no Centro, né? E usava o Centro Pop. Através dele, eu tirei minha documentação e vim atrás de benefício, que lá eles dão papel”.
Por mais de 15 anos, Aristóteles viveu nas ruas de Fortaleza. Como milhares de pessoas nessa condição, enfrentou a instabilidade cotidiana, a dificuldade de acesso a serviços públicos e a sensação persistente de não pertencimento. Ainda assim, nunca deixou de acreditar que sua vida poderia mudar.
A transformação começou quando seu caso chegou à Justiça Federal no Ceará (JFCE). Mas o ponto de virada não foi apenas uma decisão judicial favorável. O que mudou sua trajetória foi uma mudança mais profunda: a forma como a Justiça passou a enxergar, atender e decidir sobre a vida de pessoas em situação de rua, uma mudança impulsionada pela Resolução nº 425 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e pelo esforço institucional da JFCE em fazer essa diretriz sair do papel.
Esse esforço encontrou apoio no Projeto Justiça Centrada nas Pessoas (JCP), uma iniciativa da JFCE, em parceria com o Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O projeto propõe uma transformação estrutural do sistema de Justiça, colocando as pessoas, especialmente aquelas em situação de mais vulnerabilidade, no centro das decisões.
Por longos períodos, Aristóteles viveu na praça Murilo Borges, em frente à sede da Justiça Federal no Ceará, refúgio para quem busca justiça social.
A vulnerabilidade em ciclo
Aristóteles passou grande parte da fase adulta nas ruas. Ao longo dos anos, enfrentou problemas de saúde física e mental, agravados pelas condições extremas da vida sem moradia fixa.
A ausência de endereço, a burocracia e o estigma social funcionavam como barreiras quase intransponíveis ao acesso a direitos básicos. “Tinha que ir até lá, porque eu não tinha como entrar em contato de outra forma”.
Por longos períodos, Aristóteles viveu na praça Murilo Borges, no Centro de Fortaleza. Localizada em frente à sede da Justiça Federal no Ceará, ela é um refúgio para quem busca justiça social. “Lá é a única praça que aceitam deitar no banco”, observa.
Foi com apoio da rede de atendimento e de seu advogado que Aristóteles ingressou com uma ação na Justiça Federal buscando o reconhecimento de seus direitos e solicitando o Benefício de Prestação Continuada (BPC). O pedido, inicialmente negado em primeira instância, chegou à Turma Recursal em um contexto institucional já impactado pelas ações do Projeto Justiça Centrada nas Pessoas. Só então, o ciclo de vulnerabilidades começou a se romper.
Uma nova Justiça se faz escutando
A Resolução nº 425 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) estabeleceu diretrizes nacionais para o atendimento a pessoas em situação de rua no sistema de Justiça. Mas uma resolução, por mais bem intencionada que seja, só transforma realidades quando encontra quem a coloque em prática.
Na Justiça Federal do Ceará, esse esforço tomou forma por meio de iniciativas concretas: uma consultoria especializada no atendimento judicial a pessoas em situação de rua, desenvolvida no âmbito do Projeto JCP, que serviu de suporte para estruturar e implementar o que a resolução determinava. A iniciativa envolveu oficinas presenciais, escuta qualificada de magistrados, servidores e atores da rede de proteção social, além de um diagnóstico aprofundado sobre o acesso de pessoas em situação de rua à Justiça Federal.
O estudo revelou obstáculos recorrentes: ausência de protocolos específicos, dificuldades de identificação da vulnerabilidade, barreiras documentais, linguagem pouco acessível e fluxos processuais incompatíveis com a realidade da rua. Em muitos casos, essas pessoas não eram nem sequer reconhecidas como público com vulnerabilidades específicas.
A partir dessas evidências, foi elaborado o Guia Prático para Atendimento de Pessoas em Situação de Rua na Justiça Federal, que orienta desde o primeiro atendimento até a condução processual e a tomada de decisão judicial, reconhecendo a condição de rua como elemento central da análise.
“Não é um processo comum”
Relatora do caso de Aristóteles na Turma Recursal, a juíza federal Paula Emília explica que esse reconhecimento muda completamente a forma de julgar: “Se eu não tivesse essa informação acerca da condição dele, possivelmente fosse mais difícil considerar esse conjunto de condições como um impedimento de longo prazo."
O primeiro processo de Aristóteles, antes desse novo olhar, foi extinto sem resolução do mérito porque ele não conseguiu comparecer a uma perícia. Paula Emília explica que, no caso de uma pessoa em situação de rua, agora já se considera que ela pode ter faltado à perícia porque não foi localizada e, portanto, deve seguir um fluxo diferente. E assim passou a ser feito.
Segundo a magistrada, o contato com os materiais produzidos pelo Projeto JCP, especialmente o Diagnóstico e o Guia Prático da Consultoria PopRua, contribuiu para consolidar esse olhar.
“O Guia Prático contribuiu justamente para que a Resolução nº 425 do CNJ saísse do papel e chegasse à prática. Uma informação importantíssima do guia é quais são os equipamentos de rua do município, porque eu preciso saber a quem recorrer”, destaca.
A decisão reconheceu que a condição de viver nas ruas, associada a problemas de saúde e à fragilidade de vínculos familiares, configurava um impedimento de longo prazo para a plena participação social, em consonância com a Resolução nº 425 do CNJ.
“O caso do Aristóteles serve como exemplo tanto para quem está na situação dele quanto para advogados e magistrados”, afirma o advogado dele, Marcos Renan.
A mudança como prioridade
Outro marco dessa transformação institucional foi a campanha desenvolvida para o projeto Etiqueta Cidadã, uma iniciativa que já existia na JFCE, idealizada pelo Comitê Local PopRuaJud – Ceará, e que ganhou novo fôlego com o apoio do Projeto JCP: logomarca própria e vídeos tutoriais que ampliaram sua visibilidade e alcance.
A campanha disseminou o uso de um marcador institucional nos sistemas da Justiça Federal para identificar processos que envolvem pessoas em situação de rua, garantindo visibilidade, prioridade e tratamento adequado.
Mais do que um recurso técnico, a Etiqueta Cidadã é uma ferramenta de ética pública. Ela evita que esses processos se percam nos fluxos tradicionais e reforça o compromisso institucional com o acesso à Justiça.
“A relatora, doutora Paula Emília, trouxe uma perspectiva de julgamento que, pelo menos para mim, foi inédita. Em vez de encerrar o processo, a magistrada o deixou suspenso, aguardando o retorno da parte. Isso foi uma diferença que eu percebi”, explica o advogado Marcos Renan, que atuou na defesa de Aristóteles.
O acesso à Justiça começa antes do julgamento
Para Renan, o impacto do Projeto Justiça Centrada nas Pessoas vai além do resultado de um processo específico. “O caso do Aristóteles serve como exemplo tanto para quem está na situação dele quanto para advogados e magistrados”, afirma.
No caso de Aristóteles, o reconhecimento institucional da vulnerabilidade foi determinante para que o processo avançasse de forma mais adequada, célere e conectada à realidade do autor da ação.
A concessão do benefício representou um ponto de virada. Com uma renda mínima garantida, Aristóteles conseguiu sair da rua, alugar um espaço para morar e reorganizar a própria rotina. A estabilidade financeira permitiu, também, a continuidade do tratamento de saúde e o fortalecimento de projetos de vida antes inviáveis. “Eu alcancei meu objetivo, que é ter um canto pra dormir, um cantinho pra descansar minha cabeça”, celebra.
Pequenas conquistas do cotidiano, antes inalcançáveis, passaram a fazer parte de sua realidade. Quando deixou a rua, Aristóteles disse não ter nada. Só a roupa do corpo. “Hoje, eu tenho os meus moveizinhos dentro de casa, tenho minha televisão, minha bicicleta, meu celular, minha caixa de som e a cama pra me deitar a hora que eu quiser. Isso foi uma glória pra mim”, comemora.
Segundo Renan, que atuou no caso, o benefício vai além do aspecto financeiro. Ele devolve dignidade. É a base para que a pessoa possa, de fato, exercer outros direitos. Para ele, a atuação da Justiça, quando orientada por uma visão centrada nas pessoas, tem potencial real de transformação social. “É sair do lugar de conforto e tentar entrar no lugar de quem está sofrendo. Com essa visão, a justiça se torna mais justiça”, completa.
Atualmente, Aristóteles vive em uma quitinete. Tem endereço fixo, rotina e planos. A renda garantida permitiu sair da rua, reorganizar a vida, cuidar da saúde e recuperar perspectivas antes impensáveis. “Eu já consigo sorrir… me sinto muito bem, alegre e agradecido”, conta.
Sua história é singular, mas também coletiva. Ela representa o impacto de políticas institucionais baseadas em dados, escuta qualificada e inovação pública.
Justiça Centrada nas Pessoas: quando sistemas mudam, vidas mudam
O Projeto Justiça Centrada nas Pessoas atua em diferentes eixos, da produção de dados à inovação tecnológica, da experiência do usuário à comunicação institucional, com um objetivo comum: transformar a Justiça em um serviço público mais acessível, eficiente e humano.
No caso da população em situação de rua, o Eixo 3 demonstra como diagnósticos, evidências e ferramentas práticas podem transformar não apenas decisões judiciais, mas trajetórias de vida.
A história de Aristóteles mostra que, quando a Justiça muda seu olhar, ela não apenas julga melhor. Ela cumpre, de forma mais plena, seu papel social.
Aristóteles exibe, orgulhoso, a chave da quitinete onde mora. Atualmente, ele tem endereço fixo, rotina e planos.