Reflexões sobre a COP30.
Lar, calor e esperança
13 de Janeiro de 2026
Na COP30 em Belém, a EmpoderaClima organizou eventos, compartilhou perspectivas nacionais e acompanhou de perto as negociações sobre gênero e clima.
A COP30 foi especial para mim de uma forma como nenhuma outra conferência do clima havia sido. Marcou 10 anos desde que pisei pela primeira vez uma Conferência do Clima da ONU aos 18 anos, na COP21 em Paris, a COP que adotou o Acordo de Paris e mudou a trajetória da minha vida. Voltar uma década depois, agora como fundadora da ONG EmpoderaClima e como Jovem Líder do Generation17, foi como fechar um ciclo enquanto iniciava outro.
E a COP30 não aconteceu em qualquer lugar. Aconteceu em Belém, no meu país, no coração pulsante (e quente!) da Amazônia. Entrar no local do evento e ouvir voluntários falando português brasileiro, seus sotaques, e ver rostos familiares e sentir o acolhimento de estar no Brasil… foi uma experiência emocionante. Fez com que o processo climático da ONU parecesse local de uma forma que eu nunca havia sentido antes. As COPs normalmente são lugares onde corremos atrás de canais de tradução e lidamos com uma logística desconhecida. Em Belém, eu me senti abraçada.
O que mais me inspirou foi o quanto a cidade estava viva. Muitos a chamaram de “a COP do povo”, e eu realmente senti isso. Belém estava florescendo, com marchas, filmes, eventos culturais, encontros de jovens, mobilizações indígenas e ações da sociedade civil por toda a cidade. Pela primeira vez, a diplomacia climática não acontecia em uma bolha — a própria cidade fazia parte da história.
O ano de 2025 também foi incrivelmente significativo para minha organização sem fins lucrativos da juventude por justiça de gênero e pelo clima, a EmpoderaClima. Pelo fato de a COP ter sido no Brasil, cerca de 15 jovens mulheres da nossa equipe puderam participar. Não consigo expressar o quão poderoso foi isso. Organizamos eventos, compartilhamos nossas perspectivas nacionais e acompanhamos de perto as negociações sobre gênero e clima. Como alguém que entrou na sua primeira COP aos 18 anos, ainda tentando encontrar sua comunidade no espaço climático, ver nossa equipe confiante, preparada e poderosa foi como testemunhar o futuro que um dia sonhei.
Um dos resultados mais históricos foi a adoção do Plano de Ação de Gênero de Belém (GAP), que orientará a igualdade de gênero na UNFCCC de 2026 a 2034. Passei longas horas dentro da Blue Zone acompanhando as negociações, até a plenária final na tarde do último dia, depois de a COP ter sido estendida por mais 24 horas. Ver o texto do GAP adotado foi incrivelmente especial. Pareceu que uma década de advocacy, desde intervenções lideradas por jovens até educação climática de base pelo Brasil, estava se cristalizando em algo real. Claro, o que importa agora é a implementação em nível nacional, e acompanharei de perto ações ambiciosas dos países para incorporar a dimensão de gênero em suas agendas climáticas.
Minha experiência em 2025 também foi moldada por minha trajetória com o Generation17, do qual faço parte desde o início do ano passado. Isso abriu muitas portas para um engajamento significativo, desde a colaboração com o PNUD até falas em eventos como o We Don’t Have Time, do Climate Hub, na Media Zone. Permitiu que eu traduzisse as realidades técnicas das negociações em histórias acessíveis para públicos mais amplos. E me lembrou do privilégio que é ter acesso a esses espaços da ONU. Mesmo com o incrível crescimento do movimento climático da juventude, conseguir um crachá para a Blue Zone da COP ainda está longe de ser fácil, especialmente para pessoas do Sul Global. Esse acesso vem com responsabilidade, e eu a carrego profundamente.
A COP30 também revelou lacunas urgentes. Apesar da linda energia fora do local do evento, muitos brasileiros ainda não sabem exatamente o que acontece em uma Conferência do Clima da ONU. E barreiras como custos, idioma e requisitos de passaporte continuam definindo quem consegue estar na sala onde as decisões são tomadas. Esse é um ponto crucial a ser mantido em mente se quisermos que os processos climáticos reflitam o mundo que estamos tentando salvar.
Essa COP não entregou tudo o que eu esperava. Precisávamos de compromissos mais fortes para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e de um financiamento climático mais ambicioso e acessível. Alguns dos resultados políticos ainda ficaram aquém do que as comunidades na linha de frente precisam para sobreviver e se adaptar. O progresso na linguagem sobre adaptação e transição justa foi encorajador, mas ainda insuficiente.
Com a experiência que adquiri participando de espaços multilaterais e negociações, aprendi que as COPs e seus resultados raramente são perfeitos ou sequer próximos do que precisamos para o planeta, mas ainda assim são essenciais, porque estabelecem políticas, moldam expectativas globais e criam ferramentas para que possamos pressionar por implementação.
Uma das minhas partes favoritas das COPs sempre foram as pessoas. Em 2025, revi amigos que conheci quando ainda éramos adolescentes, navegando pelos círculos da juventude e aprendendo as regras de negociação pela primeira vez. Hoje, alguns deles são negociadores-chefes de seus países. Outros trabalham em fundos climáticos, integram delegações governamentais ou apoiam a presidência da COP. Ver essa evolução, essa trajetória de ativistas jovens se tornando tomadores de decisão, me inspirou. Lembrou-me por que investir em liderança jovem importa. Simplesmente porque funciona.
Também me senti imensamente grata por reencontrar colegas de Belém e de toda a região amazônica. Alguns meses antes da COP30, eu estivera em Belém para realizar um workshop para mulheres sobre resiliência climática com a EmpoderaClima, facilitando um treinamento de preparação para desastres com uma perspectiva feminista. Voltar agora, reencontrar algumas das mulheres que treinamos em espaços climáticos de alto nível e testemunhar o quanto a cidade foi positivamente impactada me fez ter esperança de que deixar um legado além das duas semanas da COP é possível.
Então, para onde vamos a partir daqui?
Para os jovens: Não subestimem sua capacidade de influenciar. Compareçam se puderem. Aprendam como funcionam as negociações. Precisamos de jovens em todos os cantos do processo.
Para formuladores de políticas: As políticas do Plano de Ação de Gênero de Belém e de todas as decisões adotadas na COP30 devem ser financiadas, implementadas e monitoradas. Ambição não significa nada sem recursos e responsabilização.
Para defensores do clima: Continuem unindo os pontos entre o que acontece nas plenárias de alto nível e o que acontece localmente. Ambos são essenciais.
Quanto a mim, levo a energia quente e amazônica da COP30 para tudo o que faço, desde o desenvolvimento de programas de educação climática e empoderamento de mulheres na EmpoderaClima até a realização de advocacy global por meio do Generation17.
Realizar a COP30 no Brasil foi um presente. Mas seu verdadeiro legado dependerá do que fazemos a seguir: se transformaremos promessas em realidade e se garantiremos que jovens, especialmente meninas e mulheres do Sul Global, estejam no centro das políticas e soluções climáticas nacionais.
Como diria a ex-Secretária Executiva da UNFCCC, Christiana Figueres, estou esperançosa, indignada e otimista. E, depois de 10 anos nesse processo, essa esperança não é ingênua; é uma escolha, uma estratégia e um compromisso de continuar comparecendo.